she is the sex
Pouco muda, tento só ser um pouco menos rebuscado a cada dia que vou dobrando e arrumando na gaveta. Tenho meia dúzia de ideias fixas, mas nunca sei com que pé vou sair da cama, com que pé vou seguir em frente, nem tão pouco sei se serei coerente. Estou em constante sobressalto com os pensamentos acerca de uma única pessoa, de entre todas as que já trocaram três dedos de conversa comigo, uma mantém presença assídua nos sonhos, nas curiosidades, nas coisas que interessam e que mudam um dia banal. E não faz ideia do tamanho disto tudo.
Juro que sim, que sei que isto são só lamechices de quem não sabe passar o tempo, mas nestes dias em que me passa mil pela cabeça e o tempo estica além do razoável, eu perco-me quase soterrado no meio de toda esta vontade. O denominador comum sou eu, que fico sempre, sempre para trás.
#1
triste como o sucumbir da ponta de um cigarro sobre o pano cinzento de um dia menos claro
la blogotheque
my body is a cage
Acho que. Penso que. Hoje isto. Ontem aquilo. Já não existem mais maneiras de começar um desabafo, pois não? Agora ando por aí, meio perdido, meio encontrado sabe-se lá por quem, à espera do teu encontrão, porque um dias hás-de chegar, desgovernada, perdida.
Gosto de sair de casa, quando fico muito tempo fechado gosto de ir andar um bocado, respirar um ar menos viciado e ver alguma coisa mais ampla que estas paredes que mais parecem enclaustros maiores que a própria sombra, as janelas abertas até cima ainda me vão distraindo do sufoco.
Então saio de casa, passo em frente ao jardim-de-infância, umas senhoras provavelmente reformadas transformaram tudo o que rodeava as paredes amarelas num jardim tratado e com muita cor, agora dá gosto cruzar aquele caminho titubeante, de tempo a tempo pisar o chão de gravilha e chegar à estrada comprida que une extremos. Costumo ir pela sombra, debaixo das árvores que crescem pelo menos há uma vintena de anos, há sempre movimento, um fluxo de gente em passo apressado ou menos apressado e até, inesperadamente, encontro quem de seu direito decidiu abrir os pulmões a um pouco de ar fresco, como forma de espairecer as ideias entorpecidas. Vou só até à igreja e volto, é tudo muito familiar para mim, faz-me sentir seguro, tira-me os pensamentos nebulosos da cabeça, limpa tudo. Deixa-me pronto para mais uns tempos engolido pela monotonia e uma muito fixa paixão platónica.
and another one goes by
gin and cigars
Fiz agora as contas e estou acordado há cerca de 14 horas. Não tenho sono, mas sinto a cabeça pesada. Deve ser das coisas que fumei há minutos, sabiam a eucalipto e vinham enroladas num papel branco sujo. Só fumei porque também não tinha nada a perder, tinha a casa demasiado vazia de vozes, mas o espaço demasiado cheio de hipóteses.
Isto só me acontece por estar demasiado afundado no sofá, e isto pode ser uma metáfora também, o ar continua muito pesado mas ao menos os lençóis já não têm o teu cheiro, que é o mesmo que dizer que o meu acordar deixou de ser tão penoso.
Queria que os meus trejeitos fossem entendidos, de forma criativa, como um desespero. Devia ser mais claro. Queria chamar a atenção. Quando começo a fazer rabiscos das minhas vontades, perco-me sempre nas milhentas linhas que te dedico, aí penso sempre no tempo todo que falta e parece que ainda há tanto para gastar. Se não houver sempre podemos pegar na mão um do outro e ir à loja de conveniência mais próxima comprar mais um bocado. Só por precaução.
E agora aqui emaranhado no meio de tudo isto, só me ocorre esta música. Wise words.
kim rocks
7 minutos e 34 segundos
Agora uma coisa mais espontânea. Tento adaptar-me, continuo a tentar, nem sei quando é que alguma vez deixarei de tentar. Mas é mesmo demais estar a viver um sonho onde a necessidade de me expor é constante, nunca sei onde começa ou onde acaba o meu limite. Nunca sei quando me calar, quando devo parar de pensar, ou o contrário. Sinto-me sempre em rotação contínua, quero sempre mais demais. Por vezes quase que expludo de medo, os meus receios estão mais à tona da pele que nunca, sei que tremo por todos os lados, sei que não tenho direitos de metade das palavras que exijo, mas continuo a ir adormecer e acordar todos os dias com essa ideia de uma relação prometedora. E é como se fosse brutalmente espancado todos os dias de manhã, quando penso que não será tudo assim tão linear. É o problema destas merdas, sim, já disse. Nada disto é linear. Ninguém pensa em ninguém em quantidades iguais, mas devia haver um meio-termo, senão ninguém sabe bem em que bolso vai ficar quando for preciso continuar. Sabes. Sim. Isso. O meu maior medo é começar a esquecer-me, perder a convicção e dar um passo borda fora sem nem sequer poder dizer todas as coisas que quero. Vou dormir. Até já.


